
Na Escola de Inverno do The Hub realizamos um encontro para REFLEXÕES CONSENSUAIS SOBRE A REALIZAÇÃO PESSOAL EM NOSSA CULTURA, conduzido pelo antropólogo chileno Ignacio Muñoz Cristi. Deste encontro pudemos recolher algumas considerações interessantes.
A noção de realização pessoal nos dias de hoje se tornou um lugar comum, demasiadamente manipulada comercialmente. Cabe portanto perguntar porque tanta gente se interessa por este tema. Porém, ao invés de tentar dar uma resposta a isso, o encontro buscou ser um convite a reflexão a partir da compreensão dos fundamentos biológico culturais do ser humano, conforme desenvolvidos pelo biólogo Humberto Maturana e Ximena Dávila, co-fundadores da Escola Matríztica de Santiago (antigo Instituto Matríztico) onde Ignacio estudou e trabalhou integrando a equipe de ensino e gestão organizacional.
Nas palavras de Ignácio: “Se busca a realização pessoal por que habitamos um conviver cultural centrado na desconfiança. no controle, na apropriação, na competição, na dominação, em uma convivência que gera conflitos e um mal estar generalizado. Também gera especificamente uma frustração pessoal, numa maneira de vivermos enroscados nas queixas e insatisfações permanentes, decorrentes do apego à toda sorte de expectativas e demandas para si mesmo, sobre outros e em relação à vida de modo em geral.
No entanto a condição biológica natural e espontânea dos seres vivos é o bem-estar, que decorre da nossa condição de seres que só podem seguir vivendo se ocorrerem as condições para a preservação da relação de congruência entre cada um e suas circunstâncias em seu meio (acoplamento estrutural). Ou seja, a adaptação não é uma variável, mas sim uma constante.
O bem-estar humano tem um fundamento biológico, mas esta cultura patriarcal-matriarcal que realizamos e conservamos hoje em todo o planeta, vai contra a corrente de nossa natureza biológica, trazendo dor e sofrimento na negação da nossa condição primária de seres amorosos (Biology of Love), espontaneamente seres éticos e abertos para a reflexão.
Assim, aconteceu neste encontro que refletimos juntos sobre a natureza da relação nicho-organismo, sobre a origem do humano, sobre a consciência ética como condição de possibilidade para a conservação da harmonia natural da unidade indivíduo-sociedade, sobre o nosso presente cultural, especificamente sobre a presença que a dor e o sofrimento tem em nossas vidas diárias, e sobre os vários mecanismos através dos quais a isto conservamos.
Também refletimos sobre como habitar no amar, e como manter uma vida que amplia o amar a partir da aceitação da legitimidade de qualquer experiência. É a dinâmica psico-cultural que nos permite sair das armadilhas de frustração pessoal para ir configurando um viver e conviver na harmonia entre nós e nossas circunstâncias.
Foi fundamental nos darmos conta neste encontro que a noção de satisfação pessoal não é parte do fluxo dos processos da vida humana, mas sim um comentário que nós fazemos neste fluxo como observadores. Ou ainda conforme explicam Maturana e Dávila: o que observamos ao distinguirmos alguém realizado é, o habitar de alguém que se conduz sem queixas por não viver o que não tem vivido.
Assim, ao aceitarmos, aceitando nossa situação e aceitando nossas queixas, surge o caminho para descobrirmos nelas (as queixas), a matriz relacional que nos aprisiona, e a saída, para assumirmos a responsabilidade pelo desejo subjacente que nos mostram as ações que nos permitem desarmar armadilhas, e sermos livres através da luz reflexiva que emerge da nossa conversa com nós mesmos.
Um um próximo encontro, poderemos aprofundar a reflexão sobre essa dinâmica, conversando consigo mesmo através de um transe natural e de nossos sonhos, âmbitos de nosso viver consciente, sub-consciente e não-consciente, que podem operar em nosso nome na forma de ferramentas psíquicas e relacionais.
Leiam o original em espanhol: ¿Realización Personal?
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